Metatron, o mensageiro do Eterno
Este estudo explora a figura enigmática de Metatron na Parashat Mishpatim, analisando sua identidade, funções e relação com a Redenção segundo fontes rabínicas, místicas e judaico-messiânicas.
O Mensageiro de D‑us em Mishpatim
Em Êxodo 23:20–21, D‑us anuncia o envio de um Mensageiro cuja autoridade é tão elevada que o povo deve obedecer sua voz, pois “Meu Nome está nele”. Essa figura não é um mensageiro comum: ele conduz Israel, guarda o caminho e possui prerrogativas divinas, como a capacidade de não perdoar transgressões. A tradição rabínica identifica esse Mensageiro com uma entidade celestial singular, cuja função ultrapassa a de um malach comum.
Essa passagem abre a porta para a compreensão de um mediador celestial dotado de autoridade divina, cuja presença acompanha Israel desde o deserto.
O Malakh HaGoel e o Mensageiro da Presença
O Mensageiro aparece também em Gênesis 48:15–16 como o “Malakh HaGoel”, o Mensageiro Redentor que acompanhou Yaakov. Isaías 63:9 o chama de “Mensageiro da Sua Presença”, aquele que redime e carrega Israel “nos dias da antiguidade”. Rabinos como o Ben Ish Chai interpretam essa passagem como revelação de um ser que participa do sofrimento de Israel no exílio e que, no futuro, revelará que todo sofrimento foi parte do caminho da redenção.
Essas fontes mostram que o Mensageiro é associado à redenção, à Presença Divina e à atuação de D‑us na história.
Metatron como Shaliach Supremo
A tradição rabínica identifica esse Mensageiro com Metatron, o “Shaliach” supremo. O princípio talmúdico “o agente de um homem é como ele mesmo” fundamenta a ideia de que Metatron age como representante direto de D‑us. Rebbe Nachman explica que D‑us governa o mundo por meio de Metatron durante os dias da semana, ocultando-Se nele para permitir a existência de um mundo onde o livre-arbítrio seja possível.
Metatron, portanto, não é apenas um mensageiro, mas o canal pelo qual D‑us administra o cosmos.
Os muitos nomes e títulos de Metatron
Metatron é descrito como o “Príncipe da Face”, “o Grande Arcanjo”, “o Nome de D‑us”, “a Palavra”, “o Homem segundo a Imagem”, entre outros. Filo já mencionava um ser celestial com múltiplos títulos que media entre D‑us e o mundo. A gematria de Metatron (314) iguala-se à de Shaddai, reforçando sua ligação com o Nome Divino. Ramban afirma que Metatron é o “Guia do Caminho”, aquele que conduz Israel ao Santuário preparado por D‑us.
Esses títulos revelam a profundidade e complexidade dessa figura, que ocupa um lugar único na hierarquia celestial.
Metatron como a Porta e o Portão do Céu
O Zohar identifica Metatron como o “Portão do Céu”, o canal pelo qual todas as forças espirituais ascendem e descendem. Ele é a “Casa de Elohim” e o “Portão da Justiça”. Essa imagem ecoa a topografia de Jerusalém, onde o Shin de Shaddai está inscrito nos vales que circundam o Monte do Templo. O livro de João apresenta Yeshua dizendo: “Eu sou a Porta”, criando um paralelo entre a função messiânica e a função atribuída a Metatron.
A figura do Portão conecta Metatron à mediação entre o mundo inferior e o superior, função essencial na mística judaica.
Metatron e o Messias: paralelos e sobreposições
Textos como 3 Enoque descrevem Metatron recebendo o Nome Divino, um manto glorioso e uma coroa luminosa — elementos que o Midrash também atribui ao Messias. Pesikta Rabbati afirma que o Messias foi contemplado antes da criação e que sua luz abala até mesmo o acusador. A tradição judaica reconhece que o Messias recebe o Nome de D‑us (Jeremias 23:5–6), assim como Metatron é chamado de “Menor YHVH”.
Essas convergências mostram que, em algumas tradições, Metatron e o Messias compartilham atributos, funções e títulos, sugerindo uma relação profunda entre ambos.
Os dois Metatrons
A Cabalá distingue entre dois Metatrons: o Metatron Superior (de sete letras), ligado à Shechiná e à alma do Mashiach ben Yosef, e o Metatron Inferior (de seis letras), identificado com Enoque após sua ascensão. Essa distinção explica por que algumas fontes descrevem Metatron como uma emanação primordial e outras como um ser transformado. A relação entre ambos é comparada à relação entre o sol e a lua, ou entre Moshe e Yehoshua.
Essa dualidade revela a complexidade da figura e sua função como ponte entre o divino e o humano.
Pardes e a ascensão celestial
O Talmud relata que quatro sábios entraram no Pardes, o domínio celestial. Apenas R. Akiva saiu em paz. Paulo descreve uma experiência semelhante em 2 Coríntios 12, sendo arrebatado ao “terceiro céu”. Essas narrativas mostram que a ascensão aos mundos superiores é perigosa e exige preparo espiritual extremo. Metatron, como “Príncipe da Presença”, é frequentemente associado a esse domínio celestial e às experiências místicas de ascensão.
Essas tradições reforçam a ideia de que Metatron ocupa um lugar central na estrutura espiritual do cosmos.
CONCLUSÃO
A Parashat Mishpatim revela um Mensageiro singular cuja autoridade e proximidade com D‑us ultrapassam a de qualquer outro ser celestial. A tradição rabínica identifica esse Mensageiro com Metatron, figura complexa que atua como Shaliach supremo, Portão do Céu, Príncipe da Face e mediador entre os mundos. Sua relação com o Messias, especialmente nas tradições místicas, mostra paralelos profundos que apontam para uma realidade espiritual onde redenção, revelação e presença divina convergem. Metatron encarna a tensão entre transcendência e imanência, entre o oculto e o revelado, e permanece como uma das figuras mais enigmáticas e fascinantes da literatura judaica.
Pergunta para reflexão: Como a compreensão da figura de Metatron pode ampliar sua percepção sobre a forma como D‑us se relaciona com o mundo e conduz a redenção?