Isaías 53 na Visão dos Rabinos Mais Antigos
Resumo: Este artigo documenta a interpretação messiânica de Isaías 53 na tradição judaica anterior ao século XII, citando fontes rabínicas antigas (Targum, Talmude, Midrashim, Zohar) que identificam o Servo Sofredor com o Messias — interpretação posteriormente deslocada para a nação de Israel por Rashi e outros, devido às perseguições da Inquisição.
- A Mudança na Interpretação: De Rashi ao Contexto Histórico
- Targum Jonathan e Midrashim Antigos
- O Talmude e a Tradição dos Dois Messias
- Testemunhos do Período do Segundo Templo
- Comentadores Medievais Anteriores a Rashi
- Rabinos Pós-Rashi que Mantiveram a Interpretação Messiânica
- O Zohar, a Pesikta e a Oração de Yom Kippur
- Conclusão
A Mudança na Interpretação: De Rashi ao Contexto Histórico
“A interpretação judaica tradicional entende a passagem como uma referência ao Messias, como, é claro, fizeram os primeiros seguidores de Yeshua, que criam ser Yeshua o referido Messias. Não foi senão no século XII que surgiu a opinião de que o Servo aqui se refere à nação de Israel, opinião que se tornou dominante no Judaísmo.” (Charles C. Ryrie Th.D Ph.D, comentário sobre Isaías 52:13-53:12, Bíblia Anotada, pág. 905)
Porém, por mais de mil anos, desde que surgiu o judaísmo rabínico, A VASTA E ABSOLUTA MAIORIA DOS RABINOS CRIA QUE ESTA PASSAGEM DIZIA RESPEITO AO MESSIAS, e não ao povo de Israel. Essa interpretação começou com Rashi no século XII, diante das enormes atrocidades e extermínios que vinham sendo praticadas naquela época contra o povo judeu, pela Inquisição Católica Romana. E obviamente Rashi viu a necessidade de se desvincular esta profecia sobre o Messias, daquele messias romano a quem os católicos diziam seguir (e não seguiam), e em nome de quem suas famílias estavam sendo mortas. Para uma audiência judaica, naquela época, admitir que essa passagem se referia ao Messias, seria como assumir a culpa por sua morte. Por isso que é necessário entendermos o que levou um erudito como Rashi a FUGIR DA CORRETA INTERPRETAÇÃO DE TODOS OS RABINOS ANTERIORES QUE FALAVAM QUE SE TRATAVA DO MESSIAS, E PLANTAR UMA OUTRA INTERPRETAÇÃO TOTALMENTE DESCONECTADA DE SEU CONTEXTO (Pois o mesmo Isaías que sempre acusa o povo de ser pecador, cheio de iniquidades, idólatra, adúltero e ganancioso etc., não ia abruptamente mudar seu discurso constante em seu livro, e num único capítulo começar agora chamá-lo de povo justo, sem pecado, que nunca cometeu injustiça etc.).
O contexto histórico das perseguições do século XII levou Rashi a reinterpretar Isaías 53 como referindo-se à nação de Israel, rompendo com uma tradição rabínica unânime que via ali o Messias Sofredor. A mudança foi motivada por razões apologéticas, não exegéticas.
Targum Jonathan e Midrashim Antigos
“Eis aqui o meu servo, O MESSIAS, a quem conduzo, o meu escolhido em quem minha Memra [palavra] tem prazer. Eu porei meu Espírito Santo sobre ele e ele revelará minha Lei às nações.” (Targum Jonathan em Isaías 42:1)
“Veja, meu servo, O MESSIAS há de prosperar; ele será elevado, e deve crescer e ser excessivamente forte: como a casa de Israel olhou para ele por muitos dias, porque o seu semblante se obscureceu entre os povos, e a aparência dele mais do que a dos filhos dos homens.” (Targum Jonathan em Isaías 52-53)
No Midrash Rabbah há uma explicação sobre Rute 2:14:
“Ele está falando sobre o REI, O MESSIAS: Achega-te para cá: aproxime-se do trono e coma do pão, isto se refere ao pão da realeza, e molha no vinagre o teu pedaço, isto se refere aos seus sofrimentos, como está escrito: Mas ele foi traspassado por causa das nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades.” (Ruth Rabbah 5:6)
O Midrash Tanhuma sobre Gn 27:3, parashá Toldot 14:
Cântico das subidas: “Eu levanto os meus olhos para as montanhas.” (Sl 121:1). É bem o que está escrito: “Quem és tu, ó grande montanha, que diante de Zorobabel se tornou uma planície?” (Zc 4:7) Esta montanha é O MESSIAS Filho de Davi. E por que ele é chamado de “grande montanha?” Porque ele será maior do que os patriarcas, como se diz: O meu servo prosperará, crescerá, se levantará e será muitíssimo elevado”. (Is 52:13). Ele crescerá mais do que Abraão, se levantará mais do que Isaque, e se tornará mais alto do que Jacó.
O método midráshico empregado no comentário do texto de Zacarias é característico do gênero. Todas as palavras do texto chamam as citações que servem para explicá-lo. A interpretação messiânica do salmo passou para o Targum da passagem, com uma forma notável:
“Como és estimado diante de Zorobabel, reino estúpido? Não és como uma planície? Mas YHWH revelará o seu MESSIAS, cujo nome foi dito desde o começo, e ele dominará sobre todos os reinos. (4:7).”
O paralelo do Messias com os grandes antepassados sublima a superioridade absoluta daquele. A ligação do Messias com Davi permite dar-lhe a alcunha de ‘Anani’ (=o das nuvens), seguindo o nome do último descendente de Davi mencionado em 1 Cr 3:25, que neste ponto se apóia no comentário de Tanhuma. Mas a justificação desta alcunha se funda na interpretação messiânica de Dn 7:13, já encontrada no Apocalipse de Esdras. (Trecho retirado do livro: A esperança judaica no tempo de Yeshua, pág. 202)
As fontes mais antigas do judaísmo rabínico — Targum Jonathan, Midrash Rabbah e Midrash Tanhuma — identificam inequivocamente o Servo de Isaías 53 como o Messias, aplicando-lhe os sofrimentos e a exaltação descritos pelo profeta.
O Talmude e a Tradição dos Dois Messias
Essas citações demonstram que a designação do Messias sofredor como “filho de José” remonta ao período do Segundo Templo. Essa tradição do “Messias filho de José” e sua morte também aparece no Talmude babilônico em Sukkah 52a:
“Os rabinos ensinaram: O Messias ben David, que (como esperamos) vai aparecer em um futuro próximo, o Santo, bendito seja Ele, irá dizer-lhe: Peça-me e dar-te-ei, como está escrito [Salmos 2:7-8]: ‘Vou anunciar o decreto … Peça-me, e darei’, etc. Mas como o Messias ben David terá visto que o Messias ben Joseph, que o precedeu foi morto, ele vai dizer diante do Senhor: ‘Senhor do Universo, nada peço a Ti, senão a vida’. E o Senhor irá responder: ‘Isso já foi profetizado pelo teu pai Davi a ti, [Salmos 21:5]: ‘A vida que ele pediu a ti, tu deste a ele’” (Talmude babilônico Sukkah 52a).
No Talmude Babilônico está registrado:
“O MESSIAS – Qual é o nome dele? … Os rabinos disseram: Seu nome é o ‘estudioso leproso’, como está escrito: Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou nossas dores; e nós o reputávamos por um leproso, ferido de D´us, e oprimido.” (Sanhedrin 98b)
Nos Mistérios do Rabi Shim’on ben Yohai (Midrash), encontramos:
“E Armilaus se unirá à batalha contra o Messias, o filho de Efraim, no portão Oriental…; e o Messias, o filho de Efraim, morrerá lá, e Israel pranteará por Ele. E depois, o Santo revelará a eles o Messias, o Filho de Davi, a quem Israel vai querer apedrejar, dizendo: Tu falas falsamente, o Messias já foi morto, e não há outro Messias que se levante (após Ele); e assim o desprezarão, como está escrito: ‘Desprezado e o mais rejeitado entre os homens’; mas ele voltará e se esconderá deles, de acordo com as palavras: ‘Como um de quem os homens escondem o rosto.’”
O Talmude conecta explicitamente o “estudioso leproso” de Isaías 53 ao Messias, e a tradição dos dois Messias (ben Yosef, que sofre e morre; ben David, que reina) fornece um quadro teológico para entender o Servo Sofredor.
Testemunhos do Período do Segundo Templo
Em um livro do período do Segundo Templo: O Testamento dos Doze Patriarcas, o testamento de Benjamin liga José à figura do Servo Sofredor de Isaías 52-53. Neste testamento, Jacó disse a José: “Em você será cumprida a profecia celestial, que afirma que o imaculado será violado por homens sem Lei e o sem-pecado morrerá por causa dos homens ímpios.”
Essas citações demonstram que a designação do Messias sofredor como “filho de José” remonta ao período do Segundo Templo.
A literatura apocalíptica do Segundo Templo já aplicava Isaías 53 a uma figura messiânica sofredora, identificada como “Messias filho de José”, que precede e prepara o caminho para o Messias filho de Davi.
Comentadores Medievais Anteriores a Rashi
O rabino caraíta Yafet Ben Ali (segunda metade do século X):
“Quanto a mim, estou inclinado, juntamente com Benjamin de Nehawend, a considerá-lo como aludindo AO MESSIAS, e que se inicia com uma descrição de sua condição no exílio, desde o seu nascimento até sua ascensão ao trono: pois o profeta começa falando que Ele está sentado numa posição de grande honra e, então volta a relatar tudo o que Lhe acontecerá durante o cativeiro. […] Com as palavras ‘Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades’, querem dizer que as dores e enfermidades pelas quais ele passou eram merecidas por eles, mas que ele as suportou em seu lugar.”
O Rabino Moisés, ‘O Pregador’ (século XI) escreveu em seu comentário sobre o Gênesis (página 660):
“Desde o princípio, D´us fez uma aliança com O MESSIAS [ben Yossef] e disse-lhe: Meu justo Messias, aqueles que são confiados a você, o pecado deles te trará um jugo muito pesado para você suportar. E ele respondeu: Eu aceito de bom grado todas essas agonias, a fim de que nenhum de Israel seja perdido. Imediatamente o Messias aceitou todas as agonias com amor, como está escrito: Ele foi oprimido e afligido.”
Lekach Tov (séc. XI – Midrash), afirma:
“E que seu reino [de Israel] seja exaltado, nos dias do Messias, de quem se diz: Eis que meu servo prosperará, será exaltado e elevado, e será mui sublime.”
Yalkut Schimeon (atribuído ao Rabino Simeon Kara, no século XII) diz:
“Em Zc 4:7: O rei Messias é maior que os patriarcas, porque é dito, ‘Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime.’ (Isa. 52:13).”
Gersonides (filósofo e talmudista judeu, 1288-1344) em Deut. 18:18 diz:
“De fato, O MESSIAS é o tal profeta, como se afirma no Midrash do verso: ‘Veja! Meu Servo prosperará’ (Is 52:13) (…) Moisés, pelos milagres que fez, trouxe uma única nação à adoração de D´us, mas o Messias vai chamar todos os povos à adoração de D´us.”
Mesmo antes de Rashi (século XII), comentaristas judeus como Yafet ben Ali (caraíta), Moisés, o Pregador, e o Lekach Tov interpretavam Isaías 53 messianicamente, demonstrando que a interpretação coletiva (Israel) não era a única nem a original.
Rabinos Pós-Rashi que Mantiveram a Interpretação Messiânica
Nachmanides (Rabino Moshe ben Nachman, século XIII) afirmou:
“Supõe-se que a visão correta com relação a esta parashá venha através da frase: ‘meu servo’ que significa todo o Israel… Contudo, como opinião diferente, adota-se pelo Midrash, que isso se refere AO MESSIAS, é necessário que a expliquemos de conformidade com a nova opinião lá mantida. O profeta diz, o Messias, o Filho de Davi, sobre quem o texto fala, nunca será conquistado nem perecerá pelas mãos dos seus inimigos. […] Pelas suas pisaduras fomos sarados – por causa das pisaduras pelas quais foi humilhado e angustiado Ele nos curará; D´us nos perdoará por Sua justiça, e seremos curados tanto de nossas próprias transgressões quanto das iniqüidades de nossos pais.”
Abravanel (1437-1508) fez uma declaração que é particularmente significativa, pois segundo sua visão pessoal não era a respeito do Messias que Isaías estava falando. Quanto a Isaías 52:13 até Isaías 53:12, ele declarou:
“A primeira questão é saber a quem ele [Isaías] se refere: Os instruídos entre os nazarenos o aplicam ao homem que foi crucificado em Jerusalém, no final do segundo Templo, e que, segundo eles, era o Filho de D´us que tomou carne no seio da virgem, como se afirma em seus escritos. Mas Yonathan ben Uziel interpreta no Targum como referente ao futuro Messias. Esta é também a opinião de nossos próprios homens instruídos na maioria de seus discursos rabínicos (midrashim).”
O Rabino Moses Alschech (1508-1600) diz:
“Eu posso observar então, que os nossos rabinos de abençoada memória, à uma só voz, aceitam e afirmam a opinião de que o profeta está falando do Rei Messias. E nós também devemos aderir ao mesmo ponto de vista.”
Moshe Cohen, um rabino do século XV na Espanha, também refuta a interpretação de que a passagem é uma referência ao povo de Israel como um todo:
“Esta passagem, os comentaristas explicam, fala do cativeiro de Israel, embora o número singular seja utilizado por toda parte. Outros têm suposto que signifique o justo neste mundo atual, que agora são esmagados e oprimidos […] mas estes também, pela mesma razão, alteram o número, retiram os versos de seu significado natural. E, então parece-me que tendo rejeitado o conhecimento dos nossos mestres, inclinaram-se ‘após a teimosia de seus próprios corações’, e em minha própria opinião, eu tenho o prazer de interpretá-la de acordo com o ensinamento de nossos rabinos sobre o Rei Messias.”
O Rabi Eliyahu de Vidas (séc. XVI) escreveu:
“Diz-se no Tanna Devei Eliyahu, que durante os treze anos em que R. Shimon ben Yohai esteve preso na caverna, as profundezas da sabedoria foram reveladas a ele, e ele alcançou o conhecimento do futuro. Em particular, ele aprendeu que o homem que tenha cometido iniqüidades deve sofrer por elas, e que não é digno de entrar na luz celestial […] se primeiro não machucar-se e esmagar-se. E é o que está escrito: Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões, e esmagado pelas nossas iniqüidades, o significado disso é que uma vez que O MESSIAS carrega nossas iniqüidades, as quais produzem o efeito de seu machucado, segue-se que aquele que não admitir que o Messias sofra assim por nossas iniqüidades, deve suportá-las e sofrê-las ele mesmo.”
Naftali ben Asher Altschuler diz:
“A enfermidade que deveria ter caído sobre nós, foi carregada por ele. Isso significa que, quando o Messias ben Yosef morrer entre as portas, e for uma maravilha aos olhos da criação, por que a pena que ele tem que carregar deve ser tão severa? Qual é o seu pecado, e qual é a sua transgressão, exceto que ele vai suportar os castigos de Israel, de acordo com as palavras ‘ferido de D´us’?” (Is. 53:4)
Moisés Alshekh diz:
“Eu vou fazer ainda uma terceira coisa, a qual é que eles devem olhar para mim (Zc 12,10), porque eles levantarão seus olhos para mim em arrependimento perfeito, quando virem aquele a quem transpassaram, isto é, o Messias ben Yosef. Porque os nossos rabinos, de abençoada memória, disseram que ele tomará sobre si a culpa de Israel, e deve, então, ser morto na guerra para fazer expiação, de tal maneira que seja considerado como se Israel lhe tivesse perfurado.”
Nachmanides, Abravanel, Alschech, Moshe Cohen, Eliyahu de Vidas e outros rabinos dos séculos XIII ao XVI — mesmo depois de Rashi — mantiveram a interpretação messiânica de Isaías 53, reconhecendo que a tradição rabínica antiga era unânime nesse ponto.
O Zohar, a Pesikta e a Oração de Yom Kippur
Zohar – Palácio dos filhos da enfermidade:
“Quando eles contam ao Messias sobre o sofrimento de Israel no exílio, e sobre os ímpios entre eles, que não se preocupam em conhecer o seu Mestre, ele levanta sua voz e chora pelos ímpios entre eles, como está escrito: ‘Mas ele foi transpassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades’ (Isaías 53:5). As almas retornam aos seus lugares. No Jardim do Éden há um palácio chamado de Palácio dos filhos da enfermidade. O Messias entra nesse Palácio, e ordena que todas as doenças, dores e agonias de Israel venham sobre ele. E todas elas caem sobre ele. Se não fosse por ele, que alivia as dores de Israel e as toma sobre si próprio, ninguém teria sido capaz de suportar os castigos de Israel pelas transgressões da Torá. Este é o significado de ‘ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si.’” (Zohar, Parashá Vayiakhel 335-336)
No Midrash Siphre, encontramos o seguinte:
“O Rabino José Galileu disse: Vem aprender os méritos do Rei Messias e a recompensa dos justos. Desde que o primeiro homem [Adão] recebeu o mandamento, uma única proibição e transgrediu – considere quantas mortes foram infligidas sobre si mesmo, em sua própria geração e sobre aquelas [gerações] que as seguiram, até o fim de todas as gerações. Qual atributo é maior: o atributo da bondade ou o atributo da vingança? Ele respondeu: O atributo da bondade é o maior, e o atributo da vingança é menor. Quanto maior, então, será o Rei Messias, que resiste aflições e dores (como está escrito: ‘Ele foi ferido e humilhado’) para justificar os transgressores de todas as gerações! E isso é o que se entende quando se lê: ‘Mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós.’ (Isa.53:6).”
No Machzor (livro de rezas das grandes festas) no Musaf de Yom Kippur existe uma oração escrita pelo Rabino Eliezer ben Kalir no século IX que fala do sofrimento e do retorno do Messias. Veja:
“Nosso Messias, o justo, apartou-se de nós: o horror nos apreendeu e não temos ninguém para nos justificar. Ele carregou sobre si as nossas iniqüidades e o jugo de nossas transgressões, e ele foi traspassado por causa das nossas transgressões. Suportou nossos pecados em cima de seus ombros para que nós pudéssemos encontrar o perdão para nossas iniqüidades. E nós seremos curados por suas feridas, no momento em que o Eterno o recriar como uma nova criatura. Oh! Elevai-o do círculo da terra. Erguei-o de Seir, para ajuntar-nos uma segunda vez sobre o Monte Líbano, pela mão de Yinnon.”
O Zohar descreve o Messias entrando no “Palácio dos filhos da enfermidade” e tomando sobre si todas as dores de Israel. A oração ‘Az Milifnei V’resheet’ no Machzor de Yom Kippur, escrita no século IX, aplica Isaías 53 diretamente ao Messias sofredor que morre e é “recriado como uma nova criatura”.
Conclusão
A documentação apresentada demonstra que, por mais de mil anos, a interpretação majoritária do judaísmo rabínico identificava o Servo de Isaías 53 como o Messias. Fontes antigas — Targum Jonathan (século I-II), Midrash Rabbah, Midrash Tanhuma, Talmude (Sanhedrin 98b, Sukkah 52a) — são unânimes nessa aplicação. A literatura do período do Segundo Templo (Testamento dos Doze Patriarcas) já conectava a figura do Messias sofredor (“filho de José”) à descrição de Isaías 53.
Rashi, no século XII, diante das perseguições da Inquisição e da necessidade de distanciar o messianismo judaico da figura de Yeshua (usada pelos perseguidores), inovou ao reinterpretar a passagem como referindo-se à nação de Israel — uma interpretação que rompeu com a tradição anterior. Contudo, mesmo após Rashi, muitos comentaristas de peso (Nachmanides, Abravanel, Alschech, Moshe Cohen, Eliyahu de Vidas, Naftali Altschuler, Moisés Alshekh) mantiveram a interpretação messiânica, reconhecendo que esta era a posição dos rabinos antigos.
O Zohar, a Pesikta Rabbati e a oração de Yom Kippur do século IX testemunham ainda a persistência dessa tradição. A evidência histórica e textual é clara: a interpretação coletiva (Israel como Servo Sofredor) é uma inovação tardia, motivada por circunstâncias históricas adversas, não pelo sentido original do texto hebraico. A interpretação messiânica de Isaías 53 é, portanto, a mais antiga, a mais consistente com o contexto literário de Isaías (que constantemente acusa Israel de pecado, não o descreve como “justo” e “sem iniqüidade”), e a que estava viva no tempo de Yeshua e dos apóstolos.
Vocabulário Técnico
- Servo Sofredor (Eved HaShem, עבד ה׳): Figura descrita em Isaías 52:13–53:12, que sofre e morre pelos pecados do povo.
- Targum Jonathan: Tradução aramaica dos Profetas (Nevi’im), atribuída a Jonathan ben Uziel (século I EC).
- Midrash Rabbah: Compilação de interpretações homiléticas sobre a Torá e os Cinco Rolos.
- Midrash Tanhuma: Midrash agádico sobre a Torá, atribuído a Tanhuma bar Abba (século V).
- Messias ben Yosef / ben David: Tradição rabínica dos dois Messias: o primeiro sofredor (Yosef) e o segundo rei guerreiro (David).
- Mashiach (משיח): “Ungido”; o Messias esperado pelo judaísmo.
- Rashi: Rabino Shlomo Yitzchaki (1040-1105), principal comentarista da Torá e do Talmude.
- Nachmanides (Ramban): Rabino Moshe ben Nachman (1194-1270), filósofo, cabalista e comentarista bíblico.
- Abravanel (Abarbanel): Dom Isaac ben Judah Abravanel (1437-1508), comentarista bíblico e líder judeu espanhol.
- Alschech (Moisés Alschech): Rabino e comentarista bíblico do século XVI, ativo em Safed.
- Zohar (זהר): Obra fundamental da Cabalá, atribuída a Rabino Shimon bar Yochai (século II).
- Pesikta Rabbati: Compilação de drashot (sermões) para as festas e ocasiões especiais.
- Machzor (מחזור): Livro de orações para as Grandes Festas (Rosh HaShaná, Yom Kippur, etc.).
- ‘Az Milifnei V’resheet: Oração medieval sobre o Messias sofredor, recitada no Musaf de Yom Kippur.
- Yeshua (ישוע): Forma hebraica do nome conhecido em português como “Jesus”.



